domingo, 13 de outubro de 2013

PARTE II - APOSTOLO PAULO E MISSÕES?

PAULO (O APÓSTOLO/MISSIONÁRIO)

Paulo e Barnabé são comissionados pelo Espírito Santo a pregar o evangelho em outros lugares, a Igreja de Antioquia então os libera de seus serviços na comunidade e os deixa partir, junto com João Marcos, para pregar nas sinagogas das cidades em que o Espírito os guiar. Neste momento Paulo inicia se ministério de plantação de igrejas. Eles buscam basicamente as sinagogas, onde é mais fácil pregar a mensagem de Cristo (os judeus já tinham conhecimento de Deus e do messias).
Em Pafos, Barnabé e Saulo anunciam as boas novas ao pró-consul Sérgio Paulo, mas neste momento o que ocorre é uma disputa com o mago judeu Elimas que tentava enganar o pró-consul se fazendo passar por representante divino.
Em Antioquia da Psídia acontece um fato que marcaria a história da igreja: um grande grupo de gentios (At. 13.42-49) vai a sinagoga ouvir Paulo e se converte, iniciando uma situação que só vai ser resolvida na reunião em Jerusalém narrada em Atos 15.1-35. Existe outro fato que tem inicio neste mesmo ponto, e vai se estender até as cartas paulinas: No discurso de Antioquia da Psidia e mais perceptivelmente no discurso em Listra, Paulo inicia uma mudança ou adequação do evangelho de Cristo para pessoas que nunca tinham ouvido falar em Único Deus, messias e outras coisas muito comuns no judaísmo. É neste momento que o teólogo das cartas começa a propor uma mudança na visão de Cristo para os judeus em contraponto a Cristo para todos.

PAULO (O PRISIONEIRO)
Nesta época o escritor Paulo, envia várias de suas cartas, ajudando a criar uma teologia cristã viável tanto para o judeu quando para o gentio.
Agora vamos analisar uma delicada parte do ministério de Paulo, o momento do inicio de sua ação como pregador itinerante. No começo de seu ministério itinerante Paulo utiliza o método comumente usado pelos discípulos, parte para pregar nas sinagogas, onde era mais simples e fácil, bastava apelar para a esperança na chegada do messias, depois colocar Cristo nessa posição, é o que vemos no primeiro discurso na Sinagoga de Antioquia da Psídia (At. 13.14-42). No sábado seguinte Paulo se depara com uma nova situação, uma multidão de Gregos, idólatras, incircuncisos se converte a realidade salvadora de Cristo, ele é expulso da sinagoga e da cidade pelos judeus. Segue até Icônico, onde algo parecido acontece. Chega a Listra, onde eles não encontram ou não vão ate nenhuma sinagoga, Paulo faz um milagre e lança mão dos conceitos filosóficos e religiosos grego-romanos, para explicar o sacrifício de Cristo. Neste momento podemos dizer que se inicia a era gentílica do cristianismo.
É claro que muitos gentios já criam em Cristo, Cornélio que chamou a Pedro (At. 10); os dispersos pela perseguição em Jerusalém, que voltando para suas casas, pregaram a gregos e cretenses em Antioquia (At. 11.19-26); entre outros fatos. Mas todos estes ouviam um evangelho e seguiam um cristianismo judeu, o que acontece na Lista é que Paulo inicia um novo movimento que vai culminar com a decisão de não se impor práticas judaicas aos antigos gentios, tomada no Concílio de Jerusalém (At 15.1-35). Isto vai tornar uma parte da igreja independente dos costumes judaicos e tenta por um fim nas divisões que vinham acontecendo em determinados grupos cristãos. Se olharmos com mais profundidade esta situação, lembraremos que Paulo fora avisado no dia de seu batismo que seu trabalho seria levar a mensagem aos gentios, reis e judeus, quando ele inicia seu ministério, vai aos judeus, as autoridades e finalmente aos gentios.
Nesse ponto cabe lembrar que claramente o Espírito Santo guiou Paulo e Barnabé a uma cidade IDÓLATRA, mas não estrangeira para os dois homens, eles eram ambos Judeus Gregos. A questão semântica cabe aqui, sendo Ananias um judeu piedoso (At. 9.10-18), convertido em Damasco, deve ter usado o termo gentio como um judeu utilizaria. Paulo foi enviado a idólatras, reis e judeus.
Nossa questão agora é, sendo este termo é muito amplo, fica uma grande dúvida: Paulo foi enviado aos estrangeiros ou aos idólatras? Ou melhor, dizendo, Paulo foi um missionário transcultural ou autóctone?
Se substituirmos a palavra gentio por estrangeiro, Paulo será claramente um missionário transcultural. Isto é o que tem sido pregado nas nossas igrejas ao longo dos séculos, principalmente em nossa visão colonialista (apesar de sermos uma colônia, nossa visão missionária é baseada na cultura missiológica anglo-americana), temos que ser como Paulo e irmos aos povos não alcançados, precisamos aprender suas línguas, seus costumes etc., etc. Só que Paulo não fez nada disto, não se preocupou com o curso de imersão, não ficou aprendendo sobre o povo, ele simplesmente chegava nas cidades e pregava. Ele conhecia os costumes, filosofias, língua, deuses, hábitos alimentares. Nunca teve nenhuma dificuldade de se colocar como parte da sociedade onde ele estava trabalhando. Ele pregava na língua que todos entendiam (grego), falava com as autoridades na língua legal (latim) e nas sinagogas em sua língua materna (aramaico).
Utilizando o conceito de idolatra, ao invés de estrangeiro, devemos analisar se Paulo poderia ser classificado como missionário autóctone. Para podermos entender devemos olhar primeiramente os mapas das “três viagens missionárias” de Paulo, descobrimos que estas foram bastante restritas, e muitas vezes Lucas narra que os planos eram de ir para um determinado lugar e o Espírito os impedia (At 16.6-10). Uma analise mais acurada destas viagens, podemos notar que Paulo trabalhou somente na área restrita ao antigo império Grego, que havia sido anexado pelo império Romano por volta de 146 a.C., para isto basta comparar os três mapas das viagens de Paulo e com o mapa da extensão do Império Grego-Macedonico.
Assim nas três viagens missionárias, Paulo foi a locais onde ele não seria considerado estrangeiro, e sim mais um cidadão nascido em outra cidade, que adorava a um Deus diferente e que pertencia a um grupo já a muito conhecido pelos gregos. A Judéia esteve sob domínio grego até a revolta dos macabeus. Fica muito difícil considerar Paulo um Missionário transcultural se ele conhecia tão bem a filosofia e a religiosidade grega, era capaz de empreender disputas acirradas e levar filósofos e autoridades a conversão usando seus próprios argumentos e filosofias. Não é possível aceitar que somente uma questão semântica, nos leve a crer que Paulo era um Missionário transcultural, assim como Cristo veio para os seus (Judeus), Paulo veio para os seus (Gregos). Quando em Listra ele toma consciência deste trabalho, aí ele inicia a transposição de toda a teologia judaica para parâmetros gentios, ou seja, traduz para forma de pensar dos gentios a verdade salvadora de Cristo.
Mas existe um ponto que reforça esta idéia de missionário nativo: a real preocupação de Paulo com a nascente igreja de Roma. Sua última viagem descrita é o caminho a Roma, neste momento é que descobrimos o Paulo romano por nascimento, utilizando de todos os seus direitos de patrício (nascido cidadão natural de Roma) para ser levado a presença do Imperador, e assim a Roma, para poder ajudar esta crescente igreja. A igreja de Roma fora fundada há alguns anos por discípulos que foram para lá levados pelos mais distintos motivos (fuga de Jerusalém, trabalho, parentela). Esta igreja precisava ser doutrinada e Paulo sabia disso, ele foi alertado que se fizesse isso morreria, pois o imperador o declararia inimigo do estado e daria ganho de causa aos seus acusadores, mesmo assim, ele faz a opção de ir a Roma. Não como transcultural (estrangeiro), pois um missionário transcultural não pode apelar de leis restritas aos cidadãos naturais para sua defesa. Paulo é um cidadão romano detido em Roma, fica em prisão domiciliar, tem liberdade para fazer reuniões, enviar cartas, receber amigos, passear pela cidade, só não pode sair da cidade (At.28).
Fica uma pergunta no ar, como o evangelho chegou aos cirenios ou ao Egito. Basta ler Atos 2.5-13, e ver. Em carta ao imperador Calígula (Keller, 2000), Herodes Agripa I, descreve o efeito desta política PAX ROMANA sobre Jerusalém, que se tornara não só capital da Judéia, mas a capital de uma série outras nações, devido às colônias estrangeiras ali instaladas. Este costume de Roma de levar pequenos grupos de colonos de um povo ou região para outro tinha criado um fértil solo para plantação do evangelho a varias etnias, que foram atingidas em cheio no dia de pentecostes, que já tinham vários prosélitos com a mulher Cananéia ou o eunuco Etíope. Outra prova de que Jerusalém foi o ponto de dispersão do evangelho para todo o império Romano é a citação de Flavio Josefo (Historia dos Judeus), que, quando das festas da páscoa e pentecoste mais de um milhão de pessoas iam a Jerusalém. Com o inicio da perseguição levada a cabo pelo sinédrio alguns meses depois muitos destes de voltaram a suas regiões de nascimento espalhando o evangelho pelo império romano (veja no mapa acima a representatividade e as distancias em quilômetros (Km)dos povos descritos em At 3).
Fica claro que Paulo em nenhum momento de seu ministério cruzou os limites culturais de suas tríplice cidadania (Romano, Judeu e Grego), e que ele soube muito bem utilizar esta situação em favor da propagação do evangelho de Cristo.
Paulo é o primeiro missionário e teólogo cristão a compreender claramente o significado do que Jesus tinha dito sobre a chegada do Reino, em um sentido amplo e abstrato, daí sua preocupação em preparar a igreja para a volta do Messias e Redentor. Por isso vemos sua clara preocupação em fazer o evangelho avançar a localidades ainda não alcançadas. Mais em nenhum momento ele ultrapassou os limites de sua cidadania, não podendo assim ser considerado um missionário transcultural.

BIBLIOGRAFIA
1.      Stagg, F – O livro de Atos
2.      Heys, N. B. – Historia Ilustrada do Mundo Bíblico.
3.      Ladd, G. E. – Teologia do Novo Testamento.
4.      Keller, W, - E a Bíblia Tinha Razão...
5.      Finley, B - Reformation in Foreign Missions
6.      Bíblia Sagrada – SBTB (TR)
7.      Bíblia Sagrada – Almeida Revista e Atualizada (ARA)
8.      A Bíblia Viva – Ed. Mundo Cristão (BV)
9.      Bíblia Vida Nova – Anotada com enciclopédia de assuntos (BVN)
10.  Novo Testamento Almeida século 21 – Ed. Vida Nova (NTA21)
11.  Josefo, Flavio – A Historia dos Judeus.
12.  Dicionário Eletrônico Houais.
13.  Davis, J. – Dicionário Bíblico.
14.  Santee, C. M. – Escola Romana.
15.  Santee, C. M. – Escola Grega.
16.  http://www.mundodosfilosofos.com.br/ - Direito Romano e Educação Romana
17.  Pauli, E., Projeto Enc. simpozio - http://www.cfh.ufsc.br/~simpozio/ - Direito Romano
18.  http://www.pbs.org/empires/peterandpaul/footsteps/ - Nos Passos de Paulo (Vida e obra de Paulo)

Texto extraido do CURSO EVANGELIZAÇÃO MUNDIAL
Realizado na Sede Brasileira da Cristian Aid.
drrubecy@hotmail.com

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